Espontaneidade

Sabe aquelas pessoas que tem a voz baixinha, delicadas, meigas? Você acha que elas são espontâneas? Não as julgue. Somente se permita perceber. Pois podemos estar falando de você, ou de mim mesmo, em algumas ocasiões. Espontaneidade é a nossa busca neste texto.

Eu não sei, mas imagino que você nunca viu um cão latir meigo ou delicado. Um cão quando late, ele late com todo seu ser. Ou um gato miar constrangido, ou até mesmo um cavalo relinchar trêmulo? Os animais soltam a sua voz naturalmente com todo seu corpo. Quem já viu um cavalo relinchando sabe que ele chega a vibrar. Assim como o cão late, o gato mia e o cavalo relincha, nós humanos gritamos. Bom, pelo menos era assim. Agora parece que não é mais permitido gritar porque “faz barulho” e não é “comportado”.

Eu sempre gostei, desde criança, de gritar ao final de um espirro. E algumas vezes fui reprimido por quem estava ao meu lado. Diziam: “que louco”, “que espalhafatoso”. Sem falar nos olhares silenciosos e julgadores. Hoje eu penso, como pode uma criança ser louca ou espalhafatosa?

Lembro de quando morava em Porto Alegre, eu espirrava e logo após ouvia dos meus bem-humorados vizinhos pelo posto de luz: “saúúdeee”. Meus “gritos” após os espirros ficaram tão conhecidos que certa vez um vizinho perguntou se eu estava bem. Eu prontamente respondi: sim, estou ótimo. E ele disse: “ah, que bom. É que não tenho mais escutado você espirrar”. Meu espirro estava associado à minha felicidade. Eu achei o máximo! Tinha ocupado meu terreno e ali já era algo natural espirrar com um leve grito ao final. Eu estava sendo espontâneo, só isso.

O grito é apenas um dos sinais. Pessoas que tem a voz “meiga” ou “baixinha”, geralmente não conseguem se posicionar na vida ou tornam-se agressivas.

Em trabalhos de grupo, como parte de um processo estruturado, usamos os sons e o grito para expressar emoções que não podem facilmente ser expressas por palavras. Qualquer pessoa aberta para expressar suas emoções vibrará com o som.

Sons e gritos podem liberar emoções reprimidas desde a infância, o que em anos de terapia tradicional, muitas vezes (mas pensa em muitas. Muuuuitas!) não acontece. E a facilidade de liberação pode efetuar mudanças positivas e significativas na personalidade.

Em minha experiência com grupos e atendimentos individuais vi clientes que haviam perdido o contato com suas emoções mais profundas. E  para não entrar em suas emoções, utilizavam um jogo de palavras durante as sessões. O mesmo jogo que utilizavam na vida. Vamos entender como acontece.

O psiquiatra americano Dr Daniel Casariel, relata que a psicanálise não tem sucesso com pessoas com distúrbios de caráter porque a transferência (processo de que depende uma análise eficaz) não se realiza. Ele relata que pessoas de caráter mórbido (pessoas prejudicadas em sua infância e adolescência por privação), são pessoas que não tiveram suas necessidades emocionais preenchidas na infância, resultando em uma separação de suas emoções mais profundas. Elas encapsulam o medo, a dor e a raiva dentro de si. Crescem com grande dor emocional dentro de si.

Para aliviar suas dores a pessoa pode beber, se drogar, ou ser sexualmente promíscua. Podem também ser pessoas bem sucedidas nos negócios, maníacos por limpeza, glutões, motoristas descuidados, ou ainda, pessoas infelizes no casamento. O fator determinante é a anestesia das emoções básicas e a encapsulação dos sentimentos numa concha defensiva, de penetração extremamente difícil para a psicoterapia tradicional.

Segundo Dr. Daniel Casariel, os neuróticos são pessoas que se questionam, por exemplo: por que eu sinto tanto medo ou raiva? E por isso sentem-se inclinados a procurarem ajuda. Eles sentem dificuldades em expressar suas emoções, mas, apesar disso, experimentam.

Caso você esteja assustado e pensando se é neurótico ou caráter mórbido, vou te tranquilizar. Grande parte das pessoas tem uma combinação entre os dois. Eu particularmente acredito que a nossa sociedade é predominantemente de caráter mórbido. Estamos cada vez mais desconectados de nossas emoções. E pagamos um preço alto por isso. Basta vermos a quantidade de remédios para dormir, enxaqueca e ansiedades que estão sendo utilizados atualmente. Ou mortes advindas de doenças que aparecem “do nada”.

Quer um dado mais assustador? Somente 5% da nossa execução é consciente. O restante é insconsciente. Viramos robôs! Nossa espontaneidade foi perdida.

Trabalhando com grupos, Dr. Casariel percebeu que outras técnicas eram capazes de atravessar defesas de pessoas de caráter mórbido e neuróticas, e colocar essas pessoas em contato com seus sentimentos. Mesmo que isso não implique em saúde instantânea, restam problemas que podem ser solucionados. Esses indivíduos podiam fazer conexões com outras pessoas com bases totalmente novas.

Assim como Dr. Casariel percebeu isso através de seu processo estruturado na Terapia do Grito, Alexander Lowen evoluiu na Bioenergética, Osho com as Meditações Ativas, Leonard Orr e Gaiarsa também com a técnica do Renascimento. Entre muitas outras linhas terapêuticas, essas eu vivenciei profundamente e pude comprovar os benefícios e a segurança. Obviamente, quando aplicadas por profissionais sérios e que tenham vivenciado profundamente as técnicas antes de aplicá-las.

Nossas emoções desconhecem as diferenças de idade, distinções sociais, diferenciações de “inteligência”. Porém, nossos sentimentos básicos de medo, raiva, dor, amor e prazer são de modo singular semelhantes aos de outros seres humanos. Aquilo que cada um de nós aprendeu a fazer com estes sentimentos é que causa os problemas de alienação e angústia, que prevalecem tão amplamente em nossa sociedade.

É comum pessoas me procurarem angustiadas e não saberem o porquê. A primeira coisa que eu faço após uma entrevista detalhada, é abrir um sorriso e dizer: vai ficar tudo bem. Vamos começar. Após alguns breves e sutis exercícios corporais, coligados ao coaching ontológico, a pessoa começa a sentir seu corpo, a aprender a respirar corretamente e enxergar novas possibilidades. A angústia dá lugar a uma ansiedade positiva e transformadora.

Há, no entanto, uma grande diferença entre ser dotado de emoção e na verdade sentí-la e expressá-la. É necessário um período surpreendentemente curto, mesmo para as pessoas imperturbáveis e “não emotivas”, serem “tocadas” ou “reprogramadas”, de forma a estarem em contato com as suas emoções e com as emoções dos outros.

Em nossos trabalhos de grupo, o enfoque está na interação dos seres humanos como pares emocionais. Através de exercícios com carga emocional, tenho visto pessoas tímidas, introvertidas, brandas, se tornarem – por algum tempo – verdadeiros tigres! Quando a pessoas consegue manifestar uma vez, é mais capaz de fazê-lo de novo.

A partir do momento em que a pessoa consegue expressar seus sentimentos em um ambiente seguro, ela encontra seu amor próprio e forças dentro de si para ser espontânea, alegre, honesta com suas emoções em suas relações, quer sejam de trabalho ou na vida pessoal.

A posição essencial de adultos que permaneceram, emocionalmente na fase infantil ou adolescente é a de respeitar os pais e figuras de autoridade, ou culpá-los, em vez de assumir a responsabilidade pessoal pelo que acontece. Perderam a espontaneidade pelo caminho.

Isso se manifesta em pessoas que perderam a espontaneidade. São sócios que tem dificuldades em trabalhar juntos, casais que não conseguem dialogar e desenvolvem relacionamentos doentios e desiguais entre si e com os filhos. São pessoas com dificuldades em estabelecer limites em suas relações e vivem omissas, sentido-se inferiores. Ou o contrário, sentem-se superiores e desenvolvem suas relações baseadas no controle.

Tenho comprovado dia após dia que o coaching ontológico https://goo.gl/StpZti individual junto com o processo de corpo com o grupo é enormemente eficiente e eficaz, porque é capaz de colocar as pessoas em contato com emoções reprimidas há longo tempo, e fundamentalmente importantes, que afetam sua maneira de pensar e agir.

Enquanto o coaching ontológico possibilita que a pessoa se torne um observador diferente de si mesma, o processo de grupo planejado estabelece confiança e possibilita desenvolver vínculos entre os participantes. É um trabalho humanizado. Seu objetivo é conquistar a honestidade emocional, capacidade de expressar os próprios sentimentos e vibrar com as emoções de outra pessoa.

Na Jornada de Autoconhecimento https://goo.gl/A3LhjT ou no Pernas para Felicidade https://goo.gl/ntNvKs, buscamos a espontaneidade. E vamos além da fachada social, além das respostas prontas e rápidas que usamos como camuflagem, além do sintoma, do padrão do comportamento individual. Vamos aos sentimentos fundamentais que são a base da personalidade. E quando a fachada é desvendada, os sentimentos que partilhamos são surpreendentemente semelhantes.

O que emerge é a essência vital e vulnerável do ser humano: sua necessidade básica de sobrevivência, de confiar e estar ligado a outros, a necessidade de amar e ser amado sem a camuflagem vazia de uma civilização doente. E assim, podemos retomar a nossa espontaneidade.

“Aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais. Clarisse Niskier, na peça Alma Imoral.

Renato Morais | Coach Ontológico, terapeuta e consultor empresarial



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