Coragem de Viver

Se o bom da vida é viver, por que temos tanto medo disso? Por que é tão difícil termos coragem de viver? Ou “nos entregarmos e simplesmente sermos?”

As pessoas pessoas passam tantos anos fazendo terapia, cursos e mais cursos tentando descobrir (como eu) a si mesmas, encontrar a verdade e a força de seu ser.

Entretanto, todo animal sabe como é ser ele mesmo. Ser é o estado natural do animal. E todos nós começamos a vida como um animal, com um senso pleno de ser. A criança simplesmente é. É totalmente identificada com os processos do corpo. Depois crescemos e esquecemos que temos um corpo.

Como nos desconectamos do corpo

Essa identificação é rompida quando seus cuidadores lhe impõem uma forma civilizada de comportamento, em oposição à sua natureza animal. Como diz Clarice Niskie, em sua peça A alma Imoral, é a moral humana se sobrepondo à alma imoral do animal homem. Essa forma de educação, ao lado da situação edipiana, força a criança a assumir uma postura oposta ao corpo e à sexualidade. Acontece com todos nós seres humanos. A grande questão é, porque é tão difícil fazer o caminho inverso numa etapa posterior da vida?

Por que é tão difícil?

Este percurso abriga vales ocultos e desconhecidos e que só descobrimos ao fazermos a jornada de volta, e por isto muitas pessoas optam por não iniciar a trajetória contrária amargando relacionamentos doentios, crises, conflitos, doenças e até mesmo abreviando a vida para não adentrar nessa escuridão que pode ser dolorosa no início, mas que é libertadora e prazerosa em sua trajetória.

Para usar de todo o seu potencial é preciso encarar a escuridão até encontrar a luz do outro lado. Todo aquele que não utiliza o todo o seu potencial, acaba, de certo modo, diminuindo o potencial de todos os que estão a sua volta. Nilton Bonder, em seu livro A Alma Imoral.

Algumas pessoas tem tanto medo de viver quanto de morrer. Evitam ir em busca de calor e prazer pois a dor de seus anseios seria praticamente insuportável. Não ousam abrir o coração porque sentem que, se forem rejeitadas, morrerão. Assim, a atitude de suportar a falta de um relacionamento humano carinhoso e de conter-se sobre o medo de amar é vivida como meio de sobrevivência.

Acredito que crianças podem morrer se a dor de um anseio não satisfeito por contato e calor humano se tornar intolerável. Ela desistirá do desejo de viver. Mortes como estas acontecem.

Como acontece a castração emocional

Alexander Lowen conta o exemplo de uma criança que é colocada na cama, sozinha, num quarto escuro, e que chora pedindo a mãe. Se esta não responder, a criança continuará chorando enquanto lhe restar alguma energia. Está em estado de dor, continuo e persistente. Esta criança poderia morrer, mas a natureza interfere para proteger sua vida. De manhã a sua mãe está ali e as energias são renovadas. Na segunda noite, deixam a criança chorar novamente imaginando que aos poucos, ela parará de chorar. E isso acontece.

[CURIOSIDADE] Em bovinos vemos essa mesma cena com frequência em terneiros (bezerros) ao serem desmamados, isto é, separados de suas mães, as vacas. Estes passam por grande período de estresse, berram por dias, ficam sem tomar água e podem morrer por insolação se não houver sombra no local. Fazem uma trilha de barro (se o ambiente for úmido) de tanto caminhar de um lado a outro no costado da cerca de arame, chamando pela mãe. Bééééé….bééééée….bééééé….dias e dias. No ponto de exaustão, eles adormecem, bem como fazem as crianças. Acordam e seguem no dia seguinte. Até que param de chorar, ou, neste caso, de berrar.

Nos dias seguintes, a criança já não chora mais tanto, pois já não tem tanta energia em função das derrotas anteriores. Adormecem mais cedo por ficar exausta mais cedo.

Criança alguma consegue suportar esse jogo. Deixar a criança chorar até a exaustão é uma tática eficiente para conseguir que ela se submeta a ir sozinha para a cama, como exemplo citado, mas isso viola seu espírito. Aos poucos, com fatos como esse, as crianças são castradas emocionalmente. Recuperar sua fé para a vida – e para Ser ela mesma – será uma tarefa hercúlea.

Algumas consequências da castração emocional

São pessoas que entram e saem de terapias sentindo-se inseguras, ansiosas e deprimidas. O sucesso torna-se a compensação por um ser humano castrado emocionalmente. Garante que a pessoa será respeitada e admirada. Infelizmente o sucesso evoca ameaça de nova castração. A admiração suscita inveja. O poder conduz ao medo, não ao amor.

São pessoas que posam de “bem sucedidos” mas escondem um analfabetismo emocional que se manifesta no controle, no comportamento raivoso com os familiares, na coerção com os funcionários, e na boa aparência e alegria demasiada com os amigos. Quanto mais alto subir a pessoa, maior a excitação, e o perigo.

O que sobe, tem que descer. Para baixo é sinônimo de descarga da excitação e alívio. Sem a capacidade de descer, a pessoa fica suspensa no ar, incapaz de encontrar tréguas para suas lutas e tumultos.

O que o mundo civilizado interpreta como correto resulta na busca pela perfeição. Altos resultados financeiros, corpos torneados, peitos inflados, barrigas de tanquinho, bundas rebitadas, olhares sérios e sorrisos frios. Escondem, em parte, a suspensão desses indivíduos no ar, que se manifesta através de tensões crônicas, enxaquecas, prisões de ventre, irritações, ansiedades, alergias, corpos rígidos e inflexibilidade.

Indivíduos carentes de afeto que estão em uma busca inconsciente, infantil e sem fim por controle e reconhecimento. Ao consultar médicos, obtém facilmente um diagnóstico “tratável”. Enquanto isso a indústria farmacêutica financia e zela com todo cuidado por cada dor de cabeça e prisão de ventre.

Sem diálogo implementado não há salvação. É preciso coragem para dar um salto fora dos limites do caráter rígido, mas é por demais ameaçador. Com sorte, encontram um profissional que não potencializa esses sintomas colocando todas as “culpas” no pai e na mãe. Um olhar terapêutico integrativo – ou uma medicina familiar integrativa – atualizado que não reforça o trauma e não os torna reféns da terapia ou de medicamentos. Livra-os de entrar em um círculo vicioso.

O coaching ontológico e a terapia ajudam a ressignificar o passado. O que aconteceu, aconteceu. Pode-se lidar com este em termos de seu efeito no presente, buscando resoluções e novas possibilidades de ação.

A inibição da vida é a morte. Dor é morte, prazer é vida. Inspiração é vida, expiração é morte. A tensão crônica no corpo é um medo da vida, um medo de se soltar, um medo de ser. Pode ser interpretada como um desejo de morrer porque a vida está por demais dolorosa.

Medo de ousar, medo do sexo, medo de amar, medo de insanidade, medo de viver. Há alguns anos conheci a letra da música “El miedo” com Lenine e Julieta Venegas, e eu o convido a observar, perceber ou visualizar aonde você sente que está ou que estão os seus medos. Lembrando que além de seus medos, encontra-se a sua coragem. Mas é preciso que você vá até lá.

Se puder, escute-a alto. É linda. A música e a voz da Julieta. A do Lenine também. Sou fã dos dois! Dance. Divirta-se com seus medos. A coragem aparecerá sem você perceber, através da dança.

Ouça a música aqui

Música El Miedo – Lenine e Julieta Venegas

Tienen miedo del amor y no saber amar

Tienen miedo de la sombra y miedo de la luz

Tienen miedo de pedir y miedo de callar

Miedo que da miedo del miedo que da

Tienen miedo de subir y miedo de bajar

Tienen miedo de la noche y miedo del azul

Tienen miedo de escupir y miedo de aguantar

Miedo que da miedo del miedo que da

El miedo es una sombra que el temor no esquiva

El miedo es una trampa que atrapó al amor

El miedo es la palanca que apagó la vida

El miedo es una grieta que agrandó el dolor

Tenho medo de gente e de solidão

Tenho medo da vida e medo de morrer

Tenho medo de ficar e medo de escapulir

Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar

Tenho medo de esperar e medo de partir

Tenho medo de correr e medo de cair

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo

O medo é uma casa aonde ninguém vai

O medo é como um laço que se aperta em nós

O medo é uma força que não me deixa andar

Tienen miedo de reir y miedo de llorar

Tienen miedo de encontrarse y miedo de no ser

Tienen miedo de decir y miedo de escuchar

Miedo que da miedo del miedo que da

Tenho medo de parar e medo de avançar

Tenho medo de amarrar e medo de quebrar

Tenho medo de exigir e medo de deixar

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia

O medo é uma armadilha que pegou o amor

O medo é uma chave, que apagou a vida

O medo é uma brecha que fez crescer a dor

El miedo es una raya que separa el mundo

El miedo es una casa donde nadie va

El miedo es como un lazo que se apierta en nudo

El miedo es una fuerza que me impide andar

Medo de olhar no fundo

Medo de dobrar a esquina

Medo de ficar no escuro

De passar em branco, de cruzar a linha

Medo de se achar sozinho

De perder a rédea, a pose e o prumo

Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão

O medo circulando nas veias

Ou em rota de colisão

O medo é do Deus ou do demo

É ordem ou é confusão

O medo é medonho, o medo domina

O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara

Medo de encarar

Medo de calar a boca

Medo de escutar

Medo de passar a perna

Medo de cair

Medo de fazer de conta

Medo de dormir

Medo de se arrepender

Medo de deixar por fazer

Medo de se amargurar pelo que não se fez

Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H

Medo de morrer na praia depois de beber o mar

Medo… que dá medo do medo que dá

Medo… que dá medo do medo que dá

Olhar para o medo – e enfrentá-lo – é o primeiro passo para sair dele. Medo é natural. Corajosas são as pessoas que entram nos seus medos e depois conseguem sair deles. E por isso não são reféns dos seus medos. Essas pessoas descobrem não só o seu potencial, mas também se percebem merecedoras de felicidade e amor verdadeiro e honesto. No fundo, o maior medo é o medo de sentir medo.

Renato Morais é consultor empresarial, coach ontológico e terapeuta.

 



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